A arte de Fernando Carpaneda


Go to content

Imprensa Virtual

O Artista

Entrevistas

Fernando Carpaneda da safra de 1970 é o escultor brasileiro mais bombado da cena underground de Nova Iorque. Nascido em Taguatinga, Brasília foi punk nos 80 (contemporâneo das famosas bandas do Distrito Federal), passou os perrengues de sempre (ser preso, arrumar pequenas confusões), até descobrir a paixão pela escultura. Em alguns anos seus trabalhos foram ganhando reconhecimento – no exterior. No Brasil? Esquece... A partir desse fato, nosso herói candango pegou um ita pro norte e foi ver o buraco mais lá em cima. O seu Martelo, sintonizado com os novos tempos, tira a prova dos nove mostrando aos leitores o trabalho e a sinceridade de um talento crescente.

O Martelo:Qual foi a primeira vez que você viajou para fora do país e o que o influenciou na decisão de mudar- se para o exterior?

Carpaneda:Viajei a primeira vez para o exterior em 1995, para participar de uma exposição em Nova Iorque. Como fiz muitos contatos após essa exposição e demonstraram grande interesse no meu trabalho, acabei me mudando pra cá.

O Martelo:Em uma das suas entrevistas você se refere ao movimento punk como a sua maior referência. Hoje o punk é apenas um clichê, um termo genérico assim com a palavra blues?

Carpaneda:
Sim e não. Claro que sei que o termo sofreu um desgaste, que muita gente não tem a menor idéia do que significou isso na música e na cultura como um todo. Todavia, o punk ainda traz um conceito que não está inteiramente morto, que não é simplesmente clichê e serve como influência para artistas e jovens de todo mundo repensarem suas condutas e ações dentro da nova realidade que vivemos. A postura punk não é um clichê. E veja que, lá no início, o Malcom (McLaren – agitador cultural e ex-empresário dos Sex Pistols e dos New York Dolls) pensava em moda, em mercado, etc. A desvirtuação não é necessariamente maléfica. Pode servir para uma transformação bacana também.

O Martelo:A sua arte é punk?

Carpaneda:Não! Minha arte é original. Mesmo no diálogo com outros artistas, outras propostas, ela é original. Nela, o punk está presente como tema, jamais como forma. Como todo artista que valha o nome, procuro traçar um caminho pessoal.
O punk original queria destruir os ícones. Qual o intuito de pegar objetos pessoais dos artistas para usá-los em sua obra? Eu sempre gostei de coletar restos de coisas. Quando era mais pobre do que sou agora, cheguei a pedir dinheiro na frente da boate New Aquarius, em Brasília, para poder entrar. Não tinha como pagar. Daí uma bicha me deu uns trocados e disse: “Toma essas migalhas pra você, seu pobre! Não preciso de restos! Sou rica!”. Fiquei feliz em conseguir o dinheiro e fui me divertir na boate. Então, restos, pra mim, têm valor, um significado especial.

O Martelo:Não seria isso uma atitude anti-punk, que perpetua o culto da personalidade?

Carpaneda:
Engraçado. Não há culto a Sid Vicious? A Patty Smith? E eles não são completamente pessoais na sua maneira de expressar. Usar referências pessoais de maneira inteligente, dando novos sentidos afetivos e artísticos aos bens não reforça o culto a personalidade. Faça uma leitura irônica. Como muitos artistas, eu brinco com a indústria pop. Por exemplo, faço retratos de alguns PUNKS que viraram personalidades e de algumas personalidades que viraram PUNKS, como o Boy George. Fiz um retrato dele e outro dia ele estava varrendo as ruas aqui. Mostro os dois lados da moeda em meu trabalho. Estou trabalhando numa escultura da Daniela Cicarelli. Ela, de celebridade, passou a ser conhecida como puta aqui nos Estados Unidos e no Brasil. Então incluí o retrato dela na minha coleção de personalidades PUNKS. Faça a leitura que desejar.

O Martelo:Qual a imagem que tens hoje do primeiro mundo, já que você reside entre Brasil, Estados Unidos e Inglaterra?

Carpaneda:
A grande diferença que vejo no primeiro mundo é o respeito as leis. Aqui, nos EUA, as leis funcionam mais rápido e são mais rígidas. As pessoas aqui pensam duas vezes antes de fazer alguma merda.

O Martelo:Hoje ao encontrar pessoas famosas que você só conhecia por livros e fotos , qual é a sua impressão?

Carpaneda:Acho uma experiência positiva. Com isso destruí vários mitos da adolescência (risos). Pessoas famosas possuem uma parcela da sua vida que é comum a todas as outras. Ser famoso não coincide sempre com ser talentoso. Muitas se escondem atrás dos nomes que têm e usam isso pra ganhar dinheiro. Muitas se mostram de uma forma na mídia e pessoalmente são outra coisa.

O Martelo:Você assistiu ao filme brasileiro Cidade de Deus? Estou me referindo a essa película porque nada me incomoda mais do que esta postura de denuncismo social, para ganhar votos do eleitorado estrangeiro. A sua arte de exclusão não segue o mesmo caminho?

Carpaneda:
Meus retratados são na maioria ex-namorados! Os mendigos e traficantes que fiz são meus amigos. E a grande maioria das esculturas que faço mostrando mendigos representam mendigos americanos que conheço aqui. Ao contrário do que você afirma, mostro um outro lado do primeiro mundo que muita gente não enxerga. Mostro o outro lado da América em meus trabalhos. Mostro a “Pobreza Americana” e não a “Beleza Americana”. Não faço denuncismo social. Faço Arte. Agora, não vou pegar apenas temas bonitinhos para agradar gente nacionalista ou falar só de mazelas para satisfazer os ranzinzas. Eu represento o que vivo e o que passa por mim e deixa alguma marca. Cidade de Deus é um grande filme!

O Martelo:Dizem que todo fotógrafo de beldades despidas gostaria de levá-las para a cama. Quando você faz uma escultura de um nu masculino consegue separar a arte da sexualidade os as duas são uma coisa só?

Carpaneda:
A melhor forma de se fazer uma boa escultura de um nu masculino é conhecendo o corpo do modelo detalhadamente.

O Martelo:Particularmente acho que você deisifica os ícones roqueiros. Por que voce nao os desconstroí exatamente como fez na escultura em que dois skin-heads neo-nazistas praticam sexo oral?

Carpaneda:Naquela escultura, os skinheads estão chupando o meu pau. Não me vejo obrigado a desconstruir ou a construir nada. Vou homenagear e criticar quem eu quiser, tomando como critério único a minha própria sensibilidade. Poderia esculpir o Jim Morrison chupando o meu pau e não estar desconstruindo a imagem dele, mas, sim, reforçando um clichê, o do roqueiro transgressor. Retratar ícones do rock é para mim retribuir o prazer que eles me proporcionaram em certos instantes da minha vida. Deixo esse papel de desconstrutor para os acadêmicos e críticos. Eu, baby, sou um artista.

O Martelo:Uma famosa groupie Americana dos anos 60 conhecida como Plaster Caster fez moldes em gesso de pênis de artistas. Em sua biografia ela disse que precisava que os pênis ficassem eretos e por isso havia um trabalho de “preparação”. Li na sua biografia que sêmem é um dos elementos utilizados nas suas esculturas. Com que finalidade você faz isso?

Carpaneda:
O sêmen tem uma textura ótima para trabalhar em bases de quadros e papeis. Usei sêmen de três modelos diferentes e cada um deles tinha o sêmen com o cheiro e o sabor diferente. O sêmen depois de seco, da uma cor toda especial para a peça, um tipo de amarelo que não se consegue com nenhum tipo de tinta. Estes três trabalhos nos quais usei sêmen eram de homens nus. Existe uma simbologia em relação ao sêmen e a argila. São dois elementos muito fortes que representam a criação: o homem feito de barro e o sêmen que da a vida ao seres. Então retrato o homem nu, surgindo destes dois elementos criados por Deus. Estou preparando a quarta escultura com o mesmo elemento. Vou fotografar todo o processo e colocar as fotos on line.

O Martelo:Você se considera um ativista do movimento gay?

Carpaneda:
Eu? Não. Você acha que deveria? (risos)

O Martelo:O Brasil evoluiu em algumas coisas, uma delas é o papel do homossexual na sociedade. Hoje já se discute o casamento gay, e os direitos de casais do mesmo sexo, como o no próprio caso da Cássia Eller ou em programas populares de tv como Big Brother Brasil, ganho pelo homossexual Jean Willis ou nas dezenas de transexuais que aparecem diariamente no programa da apresentadora Luciana Gimenez . Você acredita que a sociedade brasileira um dia aceitará a diferença?

Carpaneda:
Nâo! Não acredito! A palavra “GAY” ainda é piada no Brasil. Existem algumas vitórias, claro, como no caso da Cássia Eller e de algumas transexuais. Mas o mundo gay não se resume a Drag Queens, Travestis e Transexuais.


Revista O Martelo:http://www.omartelo.com/omartelo6/entrevista3.html


VERBO 21 entrevista - Fernando Carpaneda
Entrevista por Lima Trindade-2005

Há alguns anos FERNANDO CARPANEDA vem se destacando no cenário internacional com importantes e cultuadas exposições. Além de ocupar o histórico e prestigiado templo do rock, o CBGB, somente em 2005, participou de exposições realizadas pela The Tom Of Finland Foundation e The Leslie Lohman Gay Art Foundation, fundações que existem nos Estados Unidos a mais de 50 anos e que promovem e preservam a arte erótica no mundo. “15 minutos” é o nome de sua última mostra, acontecida em Brasília no final de novembro e início de dezembro, reunindo fotos tiradas durante a exposição "Back to the Bowery", com os artistas da The Factory como estão agora, 20 anos depois da morte de Andy Warhol, e a nova serie de esculturas em miniaturas produzidas pelo escultor. Depois do Brasil, após conceder esta entrevista exclusiva para VERBO21 , o artista segue para Nova Iorque.


Lima Trindade - Como foi a recepção de “15 minutos”? Público e mídia prestigiaram seu trabalho da mesma maneira?

Fernando Carpaneda
- A exposição “15 minutos de fama” é o resultado da exposição coletiva “Back to the Bowery”, que participei em Nova Iorque em março, com os artistas que trabalhavam no famoso atelier The

Factory, do Andy Warhol.

Vou fazer uma exposição em Brasília que reúne fotos tiradas durante essa exposição com os artistas da The Factory e minhas novas esculturas. A exposição em Nova Iorque teve um público enorme, uma grande divulgação na mídia internacional e conseguiu reunir artistas como: Billy Name, Walter Steding, Joe Dallesandro, Roberta Bayley, Mick Rock, entre outros, quase 20 anos depois da morte de Andy Warhol. Foi uma exposição histórica em Nova Iorque.

LT -Vê alguma diferença entre as “celebridades” de hoje e as do passado, sejam elas as de Andy Warhol na Factory ou as do Big Brother ou MTV?

FC - Sim. De certa forma, o Andy Warhol já previa isso, como os tais "15 minutos de fama" projetariam pessoas "normais" indiferenciadamente, e o que pessoas normais fariam para estar no mundo de sucesso e glamour, fazendo de tudo para aparecer na mídia e ter um lugar ao sol. Isso está cada vez mais constante. Não sei até que ponto isso é bom ou ruim, pois o sucesso não é uma coisa eterna e, geralmente, pessoas que ficam famosas muito rápido, perdem o sucesso e não conseguem lidar com isso depois, ficando frustradas para o resto de suas vidas. Não sei se vale à pena ficar famoso por "15 minutos" e depois morrer no anonimato. Eu prefiro viver no anonimato e ser feliz.

LT -Para mim, sua preocupação não parece estar limitada ao campo da arte. Penso que sua produção tem um forte viés político, ao tratar de sexualidade e cultura marginal. Você se julga uma pessoa politizada?

FC - Tento intervir na realidade social que me circunda, deslocando certas noções de certo ou errado nos meus trabalhos. Fiz uma escultura que se chama "O mendigo morto". É um trabalho que fala sobre os casos dos mendigos assassinados em São Paulo. É uma obra que mostra o corpo de um mendigo espancado e mutilado. As pessoas se assustam quando olham a escultura, mas é a nossa realidade que está ali. Isso acontece cotidianamente no Brasil e ninguém faz nada. Homossexuais e prostitutas são assassinados todos os dias, os processos de punição não avançam e nem a imprensa se interessa pela morte de pessoas que estão à margem. Como meu trabalho sempre foi ligado a personagens de rua, às vezes denuncio certos abusos que acontecem com as pessoas. O governo não toma providência alguma. Meu objetivo como artista é mostrar justamente esses abusos contra o ser humano. Eu não quero fazer parte da elite das artes plásticas do Brasil, ter de cair nas mãos de curadores famosos que escolhem nossos temas e fazem mapeamentos para exposições, como se essas exposições e esses artistas definissem uma cena nas artes plásticas brasileira.

LT -Tem uma razão especial para sempre representar o corpo masculino? Você não acha que a nudez, tanto a feminina quanto a masculina, está muito banalizada, seja nas artes plásticas ou na televisão?

FC - Acho! Concordo com você. Mas como eu retrato nas minhas esculturas minha vida íntima, meus amantes e ex-namorados... Vou continuar retratando homens, ao menos enquanto eu amá-los ou odiá-los, indiferentemente de ser banal ou não. Não sigo parâmetros ou a Academia. Sigo apenas o meu instinto como escultor.

LT -Todo seu trabalho possui um cunho autobiográfico? Fale de seu processo criativo. Você planeja tudo antes de esculpir ou permite que o seu inconsciente vá atuando enquanto esculpe?

FC - Sim. Sempre retrato minha vida nas obras e várias situações que vivenciei. Não faço planejamento algum, apenas pego a argila e deixo meus sentimentos fluírem. Então as posições e expressões vão surgindo sem planejamento algum, é puro instinto.


LT -No início, quando suas miniaturas ainda não eram coloridas, sentia nelas uma espécie de diálogo com Rodin. Essa avaliação é acertada? Identifica também influência de algum artista brasileiro? Por que passou a colorir as esculturas?

FC - Essas esculturas a que você se refere, são peças que eu fazia nos anos 80 e início dos 90. Eram trabalhos feitos com argila e piche, que representavam uma fase da minha vida que era voltada diretamente ao movimento Gótico e a cultura de rua. Às vezes essas peças dialogavam com Rodin e com as obras do Iberê Camargo, por causa da cor preta e os movimentos das figuras.


LT -E continua utilizando material colhido no lixo para compor as peças?

FC - Não. Eu utilizava esse processo nas esculturas feitas nos anos 80. Agora uso objetos que tenham uma ligação íntima com a pessoa que estou retratando. Quando fiz o retrato do Jerry Only, vocalista da banda Misfits, usei objetos coletados durante a festa de abertura do The Bowery Electric Festival, no Loft dos Ramones em Nova Iorque. Usei uma das latas de cerveja em que ele bebeu e algumas pontas de cigarro que ele fumou para compor o retrato.


LT -A arte contemporânea ainda possui poder para inovar? Acredita em valores como originalidade e autenticidade?

FC - Acho que o problema com a arte contemporânea no Brasil é que os curadores brasileiros sempre querem as mesmas explicações filosóficas, acompanhadas de obras que prezam uma estética nouveau-décor, que já há muito tempo foi assimilada pela decoração e principalmente pelo design de interiores. Arte contemporânea se vende em feiras hoje em dia, não contesta mais nada!


LT - Como tem sido tratado nos EUA? O fato de ser estrangeiro interfere de que maneira no julgamento da crítica americana? Como foi expor no CBGB, o Grande Templo do Rock’n’roll?

FC - Nunca tive problema em conseguir espaço nos Estados Unidos e o fato de eu ser estrangeiro não me atrapalhou em nada. O CBGB é muito forte nos Estados Unidos e em todo o mundo. Foi onde nasceu à cultura underground. Expor lá me abriu as portas para o Mocada Museum do Broolkyn, a The Tom of Finland Foundation na Califórnia, a The Leslie Lohman Gay Art Foundation em Nova Iorque, além de ter sido convidado para participar da coletiva com os artistas da The Factory do Andy Warhol. Tenho problemas no Brasil, por fazer um trabalho hiper-realista e ir contra o que os curadores brasileiros querem na mídia. Eu não vou seguir uma moda “conceitual”, imposta por acadêmicos, só pra conseguir espaço em grandes instituições e bienais. Acho um absurdo todos os anos faculdades formarem milhões de artistas plásticos com as mesmas idéias. Para mim, arte não é moda, porém sentimento e talento. Acho que qualquer orangotango consegue rabiscar com giz branco uma galeria pintada de preto ou jogar coquetel molotov no público. É esse tipo de evento que as instituições e faculdades de Brasília estão promovendo e eu estou fora disso. Vou expor na The Leslie Lohman Gay Art Foundation em 2006. Esta instituição tem em seu acervo obras de Keith Hering, Robert Mapplethorpe, Andy Warhol, Tom of Finland, entre muitos outros. Essa instituição adquiriu alguns de meus trabalhos para o acervo permanente deles. Então acho que estou no caminho certo.


Fonte: http://www.verbo21.com.br

Sex Boys entrevista Fernando Carpaneda
Carpaneda foi entrevistado pelo jornalista João Marinho em 2004.


SB- Fernando, suas esculturas se caracterizam por retratar personagens ditos marginais, como prostitutas, garotos de programa e viciados. Por que o interesse nessas pessoas e quais tipos ou profissões você retrata com mais freqüência?
FC- Bem, eu sempre gostei dessas pessoas. Acho que são pessoas que tem coragem de assumir o que são, e enfrentam a sociedade de frente, fazem o que gostam e não estão nem aí para a opnião dos outros. Sempre gostei muito de pessoas fortes e decididas, e esse estilo de vida delas sempre me inspirou. Então a maioria dos meus retratados são garotos de programa e atores de filmes pornográficos.
SB-Por que motivo você se interessou na argila como material de trabalho? E por que a escultura?
FC-Gosto da argila porque me possibilita criar em todos os angulos uma figura, quando eu pintava quadros, as vezes me sentia preso e a escultura me fez sentir livre.
SB- Com quantos anos você começou a trabalhar com arte?
FC-Comeicei a trabalhar com arte aos 13 anos de idade, pintava e desenhava o dia todo. Foi nessa época que fiz minha primeira exposição.
SB-Você já expôs fora no Brasil e no exterior. Quais foram os locais/museus/galerias mais marcantes em que vc já fez uma exposição? Por que motivos?
FC-Já expus na CB's Gallery em Nova Iorque. Esta galeria faz parte do lendário CBGB, que foi o responsável por lançar bandas de rock famosas no mundo todo (The Ramones, Blondie, Green Day, etc...). É uma galeria muito importante, pois foi lá que o Andy Warhol fez vários trabalhos com o Velvet Underground (banda que ele produzia nos anos 70), e hoje a CB's Gallery apoia todo movimento de arte underground no mundo. Expus também no Mocada Museum que é um importante museu no Brooklyn e na Millennium Art Gallery em Londres.

SB-Como é a recepção do público frente a seu trabalho, no Brasil e no exterior?
FC-Geralmente as pessoas gostam muito dos meus trabalhos, no exterior tenho um público grande que compra minhas esculturas, e trabalho com várias galerias. No Brasil as galerias de arte tem preconceito com o trabalho que faço, pois não são apenas esculturas nuas, são retratos fiéis de drogados e garotos de programa que eu conheço e que são meus amigos, e isso mexe muito com o pudor dessa gente toda.

"O meio artístico brasileiro é machista e cheio de conservadorismos."

SB-Por que a preferência por retratar nus masculinos?
FC-Sempre gostei de retratar homens e como só tenho relação com homens acabei retratando todos os meus namorados e amantes, acho o corpo do homen muito mais interessante do que o da mulher. A imagem da mulher nua é muito banal.
SB-Seria possível dizer que você faz uma "arte gay"?
FC-Sim e não. Sim porque sou homem e faço homens nus, então as pessoas já direcionam meu trabalho como sendo um trabalho gay. Se eu fosse mulher e fizesse homens nus as pessoas iam se referir a mim como " puta" e não seria um trabalho gay. Infelismente as pessoas tem esses parámetros na nossa sociedade. Más não considero um trabalho gay, porque retrato várias cenas e vários movimentos além do mundo gay.
SB- De que forma você consegue as poses dos modelos? Baseia-se em jornais ou revistas, fotografias, a pessoa posa ao vivo? Como se dá o processo de fazer a obra?
FC-Geralmente conheço as pessoas que retrato, faço algumas pessoas ao vivo, e outras por fotos. Quando fiz a escultura do jornalista e escritor russo Slava Mogutin, usei fotos, fiz vários desenhos, e me encontrei com ele em Nova Iorque para conferir alguns detalhes do corpo dele. Ele tem uma tatuagem nas costas e eu tinha que ver pessoalmente as cores da tatuagem pra copiar pra escultura. Este ano fiz uma escultura do Alysson Gothz, que foi toda feita através de fotos, na minha opinião foi um dos melhores retratos que já fiz, a escultura ficou identica a ele.Então uso vários processos dependendo da disponibilidade dos modelos.
SB-Segundo texto em seu site, você costuma basear a escultura em algo que tenha a ver com a personalidade dos retratados.Dessa forma, cada uma delas adquire praticamente uma identidade própria, à parte. Por que razão você preferiu seguir esse caminho na hora de retratar os modelos?
FC-Eu transformo minhas esculturas numa espécie de relicário, onde voce pode identificar várias referencias em relação aos modelos; frases, poesias, e objetos usados por eles. Segui esse caminho pois queria fazer um trabalho que tivesse um significado muito forte pra mim e não ser apenas uma escultura. Queria que tivesse uma ligação minha com os modelos na obra.
SB-As técnicas utilizadas remetem diretamente ao Barroco e ao século 17, inclusive com a inclusão de elementos bem pessoais seus, como o cabelo e a feitura das roupas. Por qual motivo essas características integram sua obra?
FC-Geralmente uso objetos que tenham uma ligação íntima com a pessoa retratada, uso cabelos, faço algumas roupas com o tecido da roupa da própria pessoa, uso semen, etc...Quando fiz o retrato do Joey Ramone, usei objetos que coletei enfrente ao CBGB no dia em que ele morreu, usei objetos que os fans deixaram enfrente ao CBGB como base pra escultura dele. Foram objetos que participaram de um momento histórico.Esse ano fiz um auto-retrato em que usei meu esperma e o esperma do meu namorado na base da escultura e nossos cabelos para compor as figuras. Foi um momento de amor que ficou registrado nessa obra, então com o tempo a escultura passa a ter uma conotação histórica por ser uma peça única, além de ser impossível de ser copiada, pois meu DNA está sempre nas peças.
SB- Quais as suas influências, em termos de artistas e movimentos?
FC-Sempre fui influenciado pela cultura underground.Os artistas que mais me influenciaram desde criança foram o Caravaggio, Francis Bacon, Lucien Freud e ultimamente o escultor Ron Mueck.
SB-Existe algum projeto de uma exposição em breve? Onde e quando?
FC-Por enquanto estou trabalhando numa nova série de esculturas que vão serem expostas em Nova Iorque, Londres e Amsterdam em 2006. Ultimamente só tenho feito exposições a convite, como não recebo convite pra expor no Brasil, não tenho a mínima idéia de quando vou expor na América do Sul.
SB-Onde você reside atualmente?
FC-Ultimamente tenho morado seis meses em cada país, Nova Iorque, Londres e Brasil. Tenho viajado por conta das exposições que faço no exterior, então não tenho ficado muito tempo num lugar só.
SB-Que mensagem você espera passar com sua obra?
FC-Nenhuma. Faço apenas o que sinto e gosto.
SB-Alguns textos sobre arte costumam elencar vc em uma vertente "rebelde" que, entre outras coisas, questiona o papel do curador, uma figura que, no Brasil, se tornou eminente e essencial a partir da década de 80, e a arte para "decorar apês de madame". Em sua opinião, qual o papel e o estatuto da arte hoje? E qual o papel do curador?
FC-Não acredito em curadores brasileiros! Acredito no Ferreira Gular e acho que o Ferreira Gular é a única pessoa que faz críticas sensatas sobre a arte no país, ele sim deveria ser o curador da Bienal de São Paulo. Os curadores brasileiros sempre querem as mesmas explicações filosóficas acompanhadas de obras que prezam uma estética nouveu-décor que já há muito tempo foi assimilada pela decoração e principalmente pelo design de interiores. Arte contemporanea se vende em féiras hoje em dia, não contesta mais nada! O trabalho que eu faço vai contra o que os curadores querem.
SB-Você considera a sua arte "rebelde"? Em que nível?
FC- Não acho que minha arte seja rebelde. Ela é autentica! O que acontece é que tenho espaço no exterior com um trabalho que vai contra o que os curadores brasileiros querem na mídia. Como eu não dependo de favores de curadores pra ter espaço no exterior, isso incomoda muita gente. Meu trabalho é acompanhado pelo curador do Brooklyn Museum, e de outros museus e galerias no exterior, então acho que estou no caminho certo.
SB-Deixe uma mensagem para o público da revista.
" Se conformar é uma doença. Rebelião é a cura"
Esse é o slogan de um grupo de artistas plásticos de Las Vegas que faço parte e se chama " Art Renegades" ou seja " Renegados da Arte"

Revista Sex Boys (sexboys) on Twitter:http://twitter.com/sexboys


Back to content | Back to main menu